terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Casa

Chego a casa cansada e agitada. Tudo lá fora é rápido e insípido.
Chego. Pouso os livros na mesa da cozinha e atiro levemente as chaves para a bancada. Paro e respiro. É tudo tão diferente dentro destas quatro paredes. Reparo no teu casaco, pousado despreocupadamente sobre o sofá. Sorrio. Já estás em casa e essa simples noção preenche-me e acalenta-me os sentidos. Acendo as nossas velas habituais. Respiro novamente, desta vez lenta e profundamente. Estás sentado à secretária, calmo e compenetrado, metódico e absorto como sempre me lembro de ver-te quando estás aí. Chego por trás e abraço-te. Não te vejo o rosto mas sei como sorris. Adivinho até o brilho doce do teu olhar. Conforto. É tudo o que sinto. Finalmente sinto-me em casa. Não importa onde estejamos este abraço será sempre a minha casa. E sei que sentes o mesmo sem precisar que o reiteres constantemente. Tu sabes cantá-lo a cada gesto, a cada olhar... Giras a cadeira e beijas-me ao de leve. Olhas-me nos olhos e, agora sim, vejo o teu sorriso. Estás cansado e, ainda assim, noto-te a felicidade nas linhas do rosto. Abraço-te de novo e deixo-me perder no calor do teu corpo. Um segundo apenas, sem fugir à realidade. Beijo-te de novo, demoradamente. E deixo-te entregue ao trabalho que te prende. "Não demores", peço-te. Acenas afirmativamente com a cabeça e denoto satisfação no teu olhar. Pouso-te a caneca na secretária. Um agrado que só eu sei como aprecias. Dirijo-me ao quarto, sem pressas. Ponho música a tocar suavemente e tiro a roupa numa coreografia já diária e despreocupada. Entro no banho, quente, e deixo-me embalar pela melodia dos sentidos. Demoro-me desnecessariamente, apenas pelo prazer do momento. E então sinto-te. Hesitante e envergonhado, pretendendo juntar-te a mim. Sorrio interiormente. Como te conheço. "Vem", murmuro. Coras e ficas atrapalhado. Não tencionava encabular-te, sabes isso. E então chegas, leve e suave como só tu sabes ser. E abraças-me com uma profundidade inenarrável. "Amo-te" repetes-me ao ouvido, "Amo-te". E nunca essa palavra foi tão repleta de significado como naquele momento em que me abraças.