sábado, 18 de outubro de 2008

Loucura

Deixa...
Deixa que te toque... Deixa-me descobrir os segredos no relevo do teu corpo... Deixa que te beije enquanto dormes... Enquanto o cheiro do amor que fizemos ainda povoa a pele que, de tão chegada, já é una... Shhh... Não digas nada... Sei como mentem as palavras com que te justificas... Peço-te, não digas nada. Olha-me, beija-me, toca-me, tem-me... Tudo menos impor-me as doces mas falsas verdades com que massajas a culpa...
Eu sei que não podes ficar... Sei exactamente para onde vais. Sei que a sociedade que culpas não tem sequer noção dos crimes de que a acusas. Segurança. Foi tudo o que o teu perfeccionismo conquistou. Uma pequena e falsa sensação de segurança. "Somos uma montanha russa". Sim, tens razão, somos. Mas somos tão concretos como o vento que, não podes negar, existe.
Beija-me.. Gosto quando o fazes assim... demoradamente. Shhh... Embala os sentidos no movimento dos corpos. Para quê mentir com palavras se o fazes tão bem com o sexo? Por momentos, quase acredito que estás ali... Que acordarei contigo a meu lado. Sim, já sei, não passo de uma sonhadora. Nisso sempre concordei contigo. Mesmo quando tentava convencer-me de que eu é que tinha razão... De que simplesmente não o tinhas descoberto ainda. Até menti com convicção mas nunca acreditei em mim. Sei que não ficas. Sei que não dormes mais do que uma noite. Sei que os planos que sonhei para nós são tão densos e constantes como o fumo leve de um cigarro. Às vezes rezo para que vás... Para que aprendas a dizer adeus. Para que não mais me queiras. Irritas-me tanto! Nunca to disse mas és insuportável. Odeio como cedo a tudo perante esse olhar doce. Odeio como me deixas louca de prazer. Odeio querer-te como te quero. Odeio cada desejo, cada toque, cada orgasmo. És cruel. Quase saboreio a insanidade quando estou contigo. E sabes o que mais odeio? O que mais odeio é que adoro. É que esse balançar de maré agitada quase se tornou o meu viver.
Não. Hoje não. Hoje não vou percorrer-te mais com os dedos. Hoje vou virar o olhar para a janela. Não vou conhecer-te com beijos. Não vou passear a língua na tua pele. Não. Hoje não. Hoje não vou pedir-te que fiques. Não vou embebedar-me de ti. Não mais vou deixar que me possuas. Não vou desejar-te.
Vai. Hoje rezo para que vás. Hoje canto a liberdade excruciante de não te ter aqui. Mas canto. Vai, peço-te, não demores. Não olhes para trás, não sorrias, não abandones perfume no corredor.
Esfuma-te. Leva tudo o que és e vai. No caminho leva também tudo o que sou. Não sobrou nada que não te pertença. VAI!
Suspiro. Olho-te mais uma vez e odeio enternecer-me com o teu rosto repousado de quem dorme tranquilo. Não quero acordar-te. Mas sei que hei-de despertar-te com beijos e carícias quando não mais puder acorrentar este ímpeto de te querer. Shhh... Não digas nada. "Dorme", digo suavemente. Sorris. Odeio quando mentes desta forma. Mas amo-te. Pelo menos até amanhã de manhã.

1 comentário:

Thoughtless disse...

brutal, e muito transparente.

gostei*